terça-feira, 27 de dezembro de 2022

PEGANDO LEVE COM A HIPOCRISIA DE CADA DIA

Um dos pecados mais combatidos na Bíblia é o da hipocrisia, um assunto pouquíssimo abordado nos púlpitos das igrejas, nos dias de hoje e, quando abordado, na maioria das vezes usa-se como base a passagem de Mateus, 7:2-5:

Mateus 7

3 E por que reparas tu no argueiro que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho?
4 Ou como dirás a teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, estando uma trave no teu?
5 Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, cuidarás em tirar o argueiro do olho do teu irmão. 

Esta passagem nos constrange a olharmos para nossas próprias falhas com a intenção de não sermos severos no julgamento quanto aos atos ou o comportamento de outro irmão quando nós cometemos erros e, às vezes, mais graves do que aqueles que queremos corrigir nos outros. Embora esta seja a mensagem principal, muitas das pregações apelam para que não sejamos hipócritas, cobrando dos outros o que não fazemos ou corrigindo no outro um erro menor que o que cometemos, não indo muito além disto. Uma diferença sutil que passa despercebida.
Há outras passagens falando de hipocrisia, explorando vários de seus níveis.
Mas é compreensível que pouco se fale sobre hipocrisia nos púlpitos das igrejas atuais, haja visto que muitos dos pregadores preferem adoçar os ouvidos da plateia com palavras de consolo, bênçãos, prosperidade e um deus de amor desprovido de justiça, e não o verdadeiro Deus da Bíblia, que é amor, mas também justiça.
A verdade é que todos pecamos, independente de nossa idade, nossas convicções, nosso nível de conhecimento ou compreensão ou o tempo de conversão, mas admitir publicamente o quanto somos imundos para aqueles que nos olham como se fôssemos santos exige caráter e coragem, porque a audiência é exigente e a decepção pode significar uma troca de ministério, culminando na perda de membros e na queda de arrecadação de dízimos e ofertas, sem as quais fica impossível sustentar uma estrutura milionária, com templos enormes, pastores e obreiros assalariados, horários em canais de TV e rádios, etc. Sem mencionar o padrão de vida nababesco de alguns pastores.
Sim. É isso mesmo. A fé virou um negócio muito lucrativo , um sistema complexo com muitas engrenagens que precisam ser lubrificadas para permanecer rodando, e o lubrificante é o dinheiro, que é tirado mais facilmente de clientes satisfeitos.
Porém, para permanecer no complexo negócio da fé, alguns sacrifícios são necessários, então começa-se pelo que menos agrada ou que mais incomoda a plateia ávida por entretenimento, o emocionante espetáculo mais conhecido no meio evangélico como "sinais e maravilhas". Sacrifica-se, então, a verdade, afinal, ninguém gosta muito dela, mesmo.
Mas é aí que o sistema se depara com um problema: sem verdade a pregação é vazia, não convence, não prende sequer a atenção da plateia, quanto mais a própria plateia e, sem plateia, sem dízimos e ofertas, e sem dízimos e ofertas ... Entendeu, né?
Para contornar esse obstáculo, então, sem agredir a sensibilidade a plateia, utilizam-se de meias verdades, pregando coisas que agradam, que não têm aparência de mentira e que, mesmo não sendo verdade, têm um certo verniz que lhes concede algum aspecto de autenticidade.
São cegos guiando outros cegos.
Quando, entretanto, alguém tem uma pregação dura, focada no confronto ao pecado e na salvação da alma, ao invés de glorificar a Deus por ter quem deseje a salvação da igreja, alguns membros, às vezes até pastores, ficam de tocaia, esperando pegar o pregador em pecado, para envergonhá-lo publicamente, expondo  sua hipocrisia, desmerecendo, assim, não só sua pessoa, mas também sua pregação, como se isso anulasse a verdade pregada e justificasse seu próprio pecado.
Em algum momento, certamente esse pregador poderá tropeçar, não porque seja um mau caráter, mas porque é homem, porque é carne, porque, como todos e cada um de nós, anda entre o dever e o desejo, e às vezes, cedemos aos desejos, mesmo não querendo.
Mas este é um caso cada vez mais raro 
Antigamente éramos ensinados a orar para nos santificarmos, para nos consagrarmos a Deus, mas hoje ensina-se a "decretar", "profetizar " todo tipo de bênçãos e milagres, como se Deus tivesse a obrigação de atender nossas orações com base em trechos mal interpretados ou propositalmente distorcidos das Escrituras.
Então, por que pregar sobre hipocrisia?
Como pregar sobre hipocrisia sem se incriminar, sem evidenciar o obreiro fraudulento que é?
Como ensinar algo que não se aprendeu?
Como falar a verdade dura, nua e crua num ambiente mergulhado em mentiras agradáveis?
Como falar o que as pessoas precisam ouvir quando elas já se acostumaram a ouvir o que lhes agrada?
No final, tem muita gente indo à igreja para se sentir bem, para aliviar a consciência, para participar do "ré-té-té", mas o compromisso com a Palavra é um bicho em extinção.
A verdade pode ser desagradável. Geralmente é. Mas só porque você se vê obrigado a confrontar seu pecado. Mas lembre-se do que disse Jesus:
João 14

6 Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.


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